Nunca tinha reparado nesse refrão específico do LP:
Um ponto: nada, em toda a filosofia, importa mais que ter uma mente orientada para a Verdade, pois, como nos ensina Sócrates, todo conhecimento que não se relaciona com a Verdade é opinião (doxa) e necessariamente leva à ignorância e ao engano — embora a doxa também possa integrar o processo dialético de alcançar a Verdade.
Há um texto supostamente perdido e apenas referenciado por Lucrécio que fala sobre como o simples mal estar físico, como uma dor de dente, é suficiente para estorvar o pensamento de uma pessoa e enevoar seu entendimento e julgamento. Na música do LP, o próprio eu lírico reconhece uma relação de causa e efeito entre suas feridas, talvez psicológicas, não curadas e a confusão entre o que é real e o que não é. Isso é verdadeiro, pois uma mente sã se corrompe pela debilidade, tal qual o engano e a mentira são uma corrupção da Verdade — pois a Verdade é tudo o que existe, mas nem tudo que é possível falar ou pensar possui veracidade.
O ponto que quero discutir é o seguinte: o mal estar, qualquer que seja, leva à ilusão, ao afastamento da Verdade, mas seria o contrário também válido? Pode o afastamento da Verdade levar ao mal estar, como num ciclo vicioso?
Étienne Gilson, filósofo neoescolástico (também conhecido como gigachad da vida real), entende que muitas correntes filosóficas modernas, como o niilismo e o existencialismo, surgem como consequência de um afastamento da tradição metafísica clássica e de preocupações filosóficas equivocadas ou mal fundamentadas. Ao se afastar dessas bases metafísicas sólidas, a filosofia moderna cria problemas que são insolúveis ou irrelevantes. Em outras palavras, são pseudoproblemas filosóficos que dão origem ao niilismo, existencialismo e ao relativismo.
Um exemplo claro disso é a metafísica negativa de Cioran. Nos Cumes do Desespero, seu primeiro livro, é cheio de pensamentos brilhantes e incisivos, mas também revela uma mente extremamente debilitada por trás desses pensamentos — isso é confirmado pelo próprio autor, que admitiu sofrer de depressão. Cioran não era um niilista clássico, que nega a Verdade, seu posicionamento, e a origem do termo “metafísica negativa”, se resume em “eu não me importo se há uma verdade, quero apenas sofrer”. Posicionamento este que levou o autor a alguns erros bastante grosseiros e suposições incorretas, como a ideia de que “o medo da morte confirma que nosso futuro é o nada”. Claramente non sequitur.
Nada, em toda a filosofia, importa mais que ter uma mente orientada para a Verdade. Talvez, da mesma forma que o afastamento da Verdade pode produzir um grande mal estar existencial, a sua aproximação pode curar os males da alma…
“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”
João 8:32