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filosofia

Da bondade à excelência

“A virtude do homem comum é agir bem, é ser bom. A virtude do homem bom é agir com excelência.”

Assim como o tocador de flauta busca, naturalmente, tocar a flauta, o bom tocador aspira tocá-la com perfeição. Tal como o mérito de um jogador iniciante é jogar de acordo com as regras e aplicando os conceitos aprendidos anteriormente, enquanto o do bom jogador é jogar bem.

Este é um pensamento extraído das primeiras páginas de Ética a Nicômaco, de Aristóteles. É uma ideia muito importante para o desenvolvimento de um dos principais argumentos do livro, mas não pretendo discuti-lo aqui. Basta que notemos que há uma diferença significativa aqui, pois de certa forma podemos dizer que o homem comum é naturalmente inclinado à busca dos seus bens pessoais, muitas vezes relacionados a desejos e necessidades básicas mesmo de sobrevivência e obtenção de prazer, em detrimento do Bem maior, que pode ser o bem social ou agir de acordo com a Vontade divina etc. Por isso a virtude própria do homem comum é agir bem, é ser bom, pois ele deverá sacrificar seu prazer para isso. Por outro lado, o homem bom é aquele que já superou seus desejos básicos e de obtenção de prazer e tem o “bem agir” como conduta natural, quase automática. Portanto, não há um sistema de penitências para o homem bom ao se recusar a seguir seus instintos mais baixos, pois isso não chega a ser uma privação para ele, apenas uma condição do seu Éthos. Por isso a virtude própria do homem bom ultrapassa o simples bom comportamento do homem comum, pois ele já não precisa mais ser apresentado ao Bem, e se torna em agir com excelência, desempenhar com maestria o seu papel de homem bom.

É de Agostinho o pensamento de que “o homem se torna propenso ao bem ao conhecer o peso de seu pecado”. Mesmo num contexto não teológico, puramente filosófico, é uma ótima forma de compreender o assunto, pois, de acordo com esse pensamento, podemos dizer que o homem que passa a conhecer ou é apresentado ao “peso de seu pecado” é alguém que se depara com as consequências de buscar seus próprios desejos e prazeres em detrimento do Bem maior — divino ou coletivo. Este conhecimento é oq desperta no homem a necessidade de transcender sua natureza instintiva e de se redimir, abrindo caminho para o Bem e o guiando em direção à virtude. Este processo envolve abnegação e penitência, mas é necessário para que o homem comum aprenda a colocar o Bem maior acima dos prazeres imediatos e do apego excessivo a si mesmo. Ele está, então, em uma fase de sacrifício, um caminho de renúncia e aprendizado contínuo, em que é necessário esforço e decisão consciente para alcançar o bem agir.

Por outro lado, se compreendermos o “homem bom” como alguém que já superou esses conflitos com os seus desejos mais baixos, tornando o bem agir um aspecto natural de sua vida, o Bem deixa de ser uma obrigação custosa e torna-se algo desejável e recompensador em si mesmo. A sua cobrança e o seu desafio já não é mais agir de acordo com o Bem, mas agir com excelência em tudo que faz, pois, como diz Marco Aurélio, a vida virtuosa não se constitui apenas de grandes feitos, mas em cada gesto cotidiano realizado com propósito e retidão, porque, afinal, todos eles refletem o caráter.

“A maneira como você faz qualquer coisa é como você faz tudo.”

No entanto, também é evidente que o “homem comum” e o “homem bom” não são posições absolutas, mas representam uma jornada de aprimoramento ético, pela qual todos devemos passar.